QUE É FEITO DA NOSSA IDENTIDADE CULTURAL?

18-07-2011 17:04

Por: Alzira Simões*

Vive-se numa época de mudanças e de transformações de tal forma repentinas, aceleradas e até mesmo drásticas que, quando delas nos apercebemos, está-se diante de outras que ultrapassaram as anteriores e nem nos dêmos conta de tal acontecimento...

 

Bem defendia o Poeta: «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» mas, o ser humano, continua a ter e a possuir o mesmo tipo de necessidades e aspirações e dúvidas[1].

De facto, as necessidades são semelhantes em qualquer parte do globo, o que muda são apenas as respostas que se usam e dão a essas necessidades.

 Estas respostas são o que, em termos antropológicos, se denomina de CULTURA.

 Desde que o Homem se conhece como tal que podemos falar de CULTURA, isto é, considerá-lo um sistema vivo que produz e constrói CULTURA. Todavia, este sistema é, igualmente, produzido pela cultura que ele próprio construiu. Em suma, o “Homem é produtor de cultura e produto da cultura”.

 Na realidade, o ser humano torna-se de tal modo dependente das suas criações e invenções que, viver sem elas é, cada vez mais, impensável e até mesmo impossível. Porque tudo é CULTURA e/ou passível de ser culturalizado.

 Qual de nós conseguiria viver, hoje, sem electricidade? Sem água canalizada? Sem o automóvel e todos os restantes meios de transporte, claro, concebidos e criados pelo Homem.

 Podem os caro(a)s leitores(as) contradizer-nos e afirmar que nem todos os seres humanos possuem tais objectos culturais, mesmo estando às portas do novo milénio e, em especial, no nosso País, quantos não têm água canalizada, nem electricidade, quanto mais um automóvel à porta de casa ou um computador numa das dependências da casa?! É certo que, infelizmente, se tem consciência disso mas, também é do conhecimento  geral, que tais situações começam, em princípio, a ser minoritárias no nosso País, em particular e, no mundo em geral.

 O que pretendemos, tão somente, é chamar à atenção do facto de nos habituarmos a determinados objectos culturais que sem os quais nunca mais conseguiríamos sobreviver, apesar de os modificarmos, melhorando-os (ou não!!!), modernizando-os, consoante as técnicas e a tecnologia que, mais uma vez, o ser humano vai criando, construindo e desenvolvendo, colocando ao serviço e ao dispor de todos[2].

 No entanto, existem outros objectos culturais que, ao invés de serem melhorados ou, pelo menos, preservados na sua forma mais normalizada e institucionalizada, têm vindo, nos últimos anos, a ser esquecidos, abandonados, e, para não sermos demasiado fatalistas, até mesmo destruídos. Estamos, pois, a referirmo-nos aos padrões e valores morais, éticos, estéticos, religiosos, ideológicos, políticos, enfim, numa só expressão antropológica: padrão culturais, que na nossa sociedade e cultura pareciam estar cristalizados, bem plantados e enraizados, e que serviam de alicerce à personalidade-base do povo português, como defendia Jorge Dias[3].

 Onde está aquele povo que Jorge Dias apelidou de «povo de brandos costumes»? Onde está o nosso carácter de aventureiros e conquistadores, de novos mundos, culturas, saberes e conhecimentos? E a nossa hospitalidade, anunciada e pronunciada aos setes ventos, sobretudo nas campanhas turísticas que do nosso País se elaboram? A lista poderia continuar mas... Questionámo-nos vastas vezes se tais desenraizamentos e afastamentos, além de terem múltiplos factores, quer internos quer externos, não terão tido maior relevo ou, quiçá, não terá começado a existir maior percepção para tal, quando Portugal entrou na então Comunidade Económica Europeia?

 Problematizamos, igualmente, se terá sido Portugal que entrou na União Europeia ou se não tem sido a União Europeia a entrar no nosso País?

 Esta problematização colocámo-la não por a considerarmos negativa ou prejudicial ao nosso País mas, em especial, porque se tem vindo a observar que parte da nossa IDENTIDADE CULTURAL se tem vindo a deteriorar, e a perder desde que tal evento se deu.

 Quando falamos em cultura, queremos referir, essencialmente, os tais padrões e valores culturais e não, propriamente, a nossa cultura económico-financeira, empresarial, tecnológica e até política porque, todos sabemos e, quer se queira quer não, temos que defender que estas têm que, forçosamente, acompanhar de perto o desenvolvimento acelerado dos nossos dias e da cada vez maior internacionalização e globalização das mesmas situações nos outros locais do mundo.

 Porém, outros padrões culturais identitários e identificativos do povo, da cultura e sociedade portuguesas poderiam e deveriam desenvolver-se sim, mas de uma forma menos brusca e drástica, de modo a não provocar, em especial, nas nossas crianças e jovens, um descrédito e desenraizamento tais que os têm levado a perder a lembrança, a confiança, o respeito, a admiração, e a consideração pela sua própria nação (o designado despatriotismo), e pelos valores socioculturais do seu País e que, em princípio os seus progenitores (entre os mais variados agentes sociais) lhes tentam transmitir sob as mais diversificadas formas e meios.

 Na realidade, do que temos receio é que parte da identidade cultural de Portugal se perca e, conjuntamente com ela se percam, muitos valores essenciais, basilares e fundamentais à educação e à formação dos homens de amanhã... os nossos jovens, os nossos adolescentes, as nossas crianças...

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Artigo publicado no Semanário Região de Cister, Alcobaça, ed. nº 382, de 16 de Novembro de 2000, p. 10.

 

* Ph.D. in Social Sciences; Antropóloga. Mestre em Sociologia.



[1] Dúvidas existenciais até, pois a Humanidade ainda não conseguiu obter as respostas tão ansiadas às questões tão antigas quanto ela própria: “Quem Somos?”, “Donde Viemos?” e “Para onde Vamos?”, mas tal temática pode ser deixada para uma próxima oportunidade...

[2] As mudanças, as alterações, sejam estas de que tipo forem são sempre difíceis de aceitar à priori  e com facilidade. Aliás, alterar o que se encontra enraízado e cristalizado nas práticas quotidianas aos mais diversificados níveis é do mais complicado e complexo.

[3] Antropólogo português que defendeu e fez com que a Antropologia e a Cultura Portuguesas ficassem conhecidas.

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