RACISTA? XENÓFOBO? EU NÃO SOU...!
Por Alzira Simões
«”A minha raça sou eu, João Passarinheiro”.
Convidado a explicar-se, acrescentou: “A minha raça sou eu mesmo.
A pessoa é uma humanidade individual”.»
Mia Couto, in: Cada Homem é uma Raça
O conceito de racismo surge, como se sabe, do de raça. No entanto, defendo que aquele é muito mais abrangente que este, se se tiver em conta o que, comummente, se entende por raça. Quero com tal afirmar que, trata-se de um termo geral que indica uma subdivisão da espécie, representada por um determinado número de indivíduos que possuem um conjunto de caracteres somáticos hereditários comuns (os denominados, em termos biológicos, genótipos), quer estes sejam: morfológicos, cromossomáticos, fisiológicos, ecológicos, etológicos, bioquímicos, psicológicos, patológicos, etc..., prescindindo-se, deste modo, dos caracteres adquiridos, ou designados de fenótipos.
Assim, falar, etnológica e antropologicamente, de raça torna-se inútil e sem sentido algum, na medida em que não existem e, quiçá, nunca existiram, raças puras, por um lado e, por outro, é difícil descortinar uma relação entre caracteres físicos que sejam objecto de estudo das raças e das diferentes culturas. Defendo, como antropóloga e socióloga, que o factor racial é negligenciável perante os fenómenos cultural e social.
É do conhecimento geral, que foi a partir do século XIX, sobretudo, que se começou a escrever e a falar, com mais veemência acerca dos problemas da raça e do racismo e, com estes e, por consequência mútua, de uma outra problemática antropológica: o etnocentrismo e, mais recentemente, o xenofobismo.
Na verdade, sendo o etnocentrismo todo o comportamento social e toda a atitude ou conduta afectiva que leva as pessoas a privilegiarem e a valorizarem o que é seu (por exemplo: o grupo de amizade, étnico, de vizinhos, equipa de futebol, etc.), em relação ao Outro(a), julgando estes últimos, quase sempre, de modo negativo.
Então, o etnocentrismo é característico de todos os seres humanos, pois não existe ninguém que não se considere a si próprio ou àquilo que lhe pertence ou, ainda, o grupo de que faz parte, como o melhor, senão em todos, pelo menos em alguns, aspectos mais ou menos relevantes.
Portanto, na maioria das vezes, o comportamento etnocêntrico origina o racismo (entendendo-se este como a teoria e a prática que se fundamenta na crença da superioridade das raças) e o xenofobismo (que consiste no temor, no medo e, simultaneamente, num certo ódio em relação a tudo o que é estranho e estrangeiro ao seu meio social e cultural).
É óbvio que quando confrontados com questões como: “Você é racista? Ou Preconceituoso(a) a grande maioria de nós responde de modo negativo. Aliás, acrescentam, quase sempre, que preconceituosos e racistas são os outros, nunca eles!
Porém, palavras «leva-as o vento», e a passagem às acções e comportamentos racistas e xenófobos, preconceituosos, intolerantes e discriminatórios têm vindo a ser cada vez mais visíveis no quotidiano de todas as sociedades e culturas actuais, incluindo a nossa. De tal forma as acções e as atitudes do género têm vindo a aumentar que, quanto mais se fala, escreve e se mostra mais estas se realizam e concretizam. Vejam-se alguns exemplos: tudo o que acontece de mal ou de menos bom (assaltos, drogas, etc., são logo, à partida, rotulados como sendo efectuados por pretos ou ciganos, e os brancos – a considerada maioria – é a boa no meio de tudo isto...! Será? Sempre ouvi dizer que “existe sempre uma ovelha negra/ranhosa na família”, seja esta qual for e que cor tiver...).
Tem-se visto surgir nos últimos tempos, no panorama internacional (a AMI, P.exº) e nacional (o SOS Racismo, a Frente Anti-Racista, entre outros organismos) organizações e instituições cujo objectivo principal é o de defender o reconhecimento dos direitos das minorias discriminadas, o alertar para a existência dos denominados racismo e xenofobismo latentes, inseridos e alimentados em cada um de nós mas, igualmente, nos diversos mecanismos sócio-culturais de formação e informação da sociedade de massas em que vivemos.
É certo e sabido que se nada se fizer (começando por cada um de nós) para acabar com este tipo de comportamentos e situações, estes tenderão a aumentar e a tornarem-se em maior número e, pelo “andar da carruagem xenófoba” a que se tem assistido no nosso país (para não referir o resto do mundo), estes vão ficar mais agressivos e violentos. Todavia, julgo que o mais importante é, educar, ensinar, sensibilizar e mobilizar, em especial, as gerações mais jovens e vindouras, para a necessidade de olhar o Outro como Igual, apesar de sermos, enquanto indivíduos individuais (passo o pleonásmo) com uma personalidade própria, por natureza, mas nunca superiores nem inferiores, apenas diferentes. Deve-se encarar com naturalidade, igualdade e tolerância a diversidade e a multiculturalidade existentes na Aldeia Global em que Todos Vivemos.
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Artigo publicado Semanário Região de Cister, Alcobaça; ed. n.º 390, de 11 de Janeiro de 2001, p. 10.
Formadora e Consultora na área comportamental e gestão de pessoas (RH).
Ph.D Social Sciences, mestre em Sociologia e licenciada em Antropologia.